Relacionamentos e vínculos

Como os vínculos que construímos ao longo da vida influenciam nossa saúde mental, autoestima e qualidade de vida.

Psicóloga Glória Derlan

8/27/20255 min read

Vínculos saudáveis: por que os relacionamentos são tão importantes para a nossa qualidade de vida?

Você já percebeu como algumas pessoas nos fazem sentir acolhidos, compreendidos e seguros? Da mesma forma, também existem relações que podem nos deixar inseguros, ansiosos ou emocionalmente desgastados. Isso acontece porque os vínculos que construímos ao longo da vida exercem uma influência profunda sobre nossa saúde mental, autoestima e qualidade de vida.

Não é por acaso que, quando estamos passando por momentos difíceis, uma conversa acolhedora, um abraço ou a sensação de que não estamos sozinhos podem fazer tanta diferença. Somos seres relacionais. Precisamos do encontro com o outro para nos desenvolvermos, aprendermos e construirmos nossa identidade.

Essa ideia também está presente no Psicodrama, abordagem criada por Jacob Levy Moreno. Para ele, o ser humano se forma e se transforma por meio das relações. Moreno acreditava que o encontro genuíno entre as pessoas possui um enorme potencial de crescimento, desenvolvimento e cura.

Os vínculos ajudam a construir a forma como vemos a nós mesmos e ao mundo

Desde muito cedo aprendemos, por meio das relações, se o mundo é um lugar seguro ou ameaçador. Aprendemos se podemos confiar nas pessoas, pedir ajuda quando precisamos ou expressar nossos sentimentos sem medo de sermos rejeitados.

Essas experiências não ficam apenas no passado. Elas influenciam a maneira como nos relacionamos na vida adulta, como enfrentamos desafios e até mesmo como cuidamos da nossa saúde emocional.

Uma revisão científica realizada por Adams e colaboradores (2018) mostrou que a forma como as pessoas se relacionam afeta até mesmo a busca por ajuda psicológica. Pessoas que desenvolveram relações mais seguras ao longo da vida tendem a procurar apoio com mais facilidade e a permanecer engajadas nos tratamentos quando necessário. Já aquelas que tiveram experiências relacionais mais difíceis podem apresentar maior resistência para confiar nos outros ou pedir ajuda.

Do ponto de vista psicodramático, essas experiências iniciais fazem parte daquilo que Moreno chamou de matriz de identidade: o conjunto de relações que serve como base para a construção de quem somos. É nesse contexto que aprendemos nossos primeiros papéis na vida, como filho, filha, amigo(a), estudante e tantos outros.

Relações saudáveis favorecem autoestima, bem-estar e qualidade de vida

Quando nos sentimos aceitos, respeitados e valorizados, nossa autoestima tende a se fortalecer. Isso não significa que deixaremos de enfrentar dificuldades, mas que teremos mais recursos emocionais para lidar com elas. A ciência tem mostrado que relacionamentos positivos funcionam como importantes fatores de proteção para a saúde mental. Sentir-se conectado a outras pessoas está associado a maiores níveis de bem-estar emocional, satisfação com a vida e qualidade de vida.

Uma ampla revisão científica realizada por Kelley e colaboradores (2014) demonstrou que a qualidade da relação entre profissionais de saúde e pacientes influencia diretamente os resultados do cuidado. Em outras palavras, a forma como somos acolhidos e compreendidos pode impactar positivamente nossa saúde e nosso processo de recuperação. Esse resultado reforça algo que muitas pessoas já percebem na prática: sentir-se ouvido e respeitado faz diferença. Os vínculos não são apenas um detalhe da vida. Eles são parte fundamental da nossa saúde emocional.

Moreno também enfatizava que o desenvolvimento humano acontece por meio dos encontros. Quando uma pessoa encontra espaço para ser vista, escutada e reconhecida em sua singularidade, ela amplia suas possibilidades de ação, criatividade e espontaneidade diante da vida.

A psicoterapia como um espaço para construir novas formas de relacionamento

Muitas vezes, carregamos experiências difíceis que influenciam nossos relacionamentos atuais. Podemos ter medo de confiar, dificuldade para expressar sentimentos ou receio de sermos julgados e rejeitados. A psicoterapia oferece um ambiente seguro para compreender essas experiências e construir novas formas de se relacionar.

Pesquisadores como Saxler e colaboradores (2024) identificaram que um dos fatores mais importantes para o sucesso da psicoterapia é a qualidade da relação entre terapeuta e paciente. Quando existe confiança, colaboração e acolhimento, as chances de o tratamento produzir resultados positivos aumentam significativamente.

Outro estudo, realizado por Petrowski e colaboradores (2018), mostrou que o vínculo desenvolvido entre paciente e terapeuta está associado à melhora do processo terapêutico. Isso acontece porque a relação terapêutica pode proporcionar experiências emocionais diferentes daquelas que a pessoa viveu anteriormente, favorecendo novas formas de perceber a si mesma e aos outros.

No Psicodrama, esse processo pode ser compreendido como uma oportunidade de ampliar a espontaneidade e desenvolver novos papéis relacionais. Em vez de repetir padrões que causam sofrimento, a pessoa passa a experimentar maneiras mais saudáveis de se posicionar diante da vida e das relações. Aos poucos, o espaço terapêutico torna-se um lugar de encontro, reflexão e transformação.

Cuidar dos vínculos também é cuidar da saúde mental

Quando pensamos em saúde, muitas vezes lembramos apenas do corpo. No entanto, a qualidade dos nossos relacionamentos também influencia profundamente nosso bem-estar. Vínculos seguros favorecem a autoestima, melhoram a qualidade de vida e contribuem para uma saúde mental mais equilibrada. Da mesma forma, a psicoterapia pode oferecer um espaço importante para compreender experiências passadas, fortalecer recursos emocionais e desenvolver relações mais saudáveis.

Como propunha Moreno, crescemos por meio dos encontros. Por isso, cuidar dos vínculos que construímos — com os outros e conosco mesmos — é também uma forma de cuidar da própria vida. Afinal, relações saudáveis não eliminam todas as dificuldades, mas podem nos oferecer apoio, segurança e força para enfrentá-las.

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Bibliografia consultada

Adams, G. C., Wrath, A. J., & Meng, X. (2018). The Relationship between Adult Attachment and Mental Health Care Utilization: A Systematic Review. DOI: 10.1177/0706743718779933.

Jacob Levy Moreno. Quem Sobreviverá? (1934).

Jacob Levy Moreno. Psicodrama (1993).

Kelley, J. Kraft-Todd, G. Schapira, L. Kossowsky, J. Riess, H. (2014). The influence of the patient-clinician relationship on healthcare outcomes: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. DOI: 10.1371/journal.pone.0094207.

Petrowski, K. Berth, H. Schurig, S. Probst, T. (2018). Suppressor Effects in Associations Between Patient Attachment to Therapist and Psychotherapy Outcome. DOI: 10.1002/cpp.2334.

Saxler, E. Schindler, T. Philipsen, A. Schulze, M. Lux, S. (2024). Therapeutic Alliance in Individual Adult Psychotherapy: A Systematic Review. DOI: 10.3389/fpsyg.2024.1293851.

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