Crises emocionais

Crises emocionais não são sinais de fraqueza. Muitas vezes, são parte natural das transformações que vivemos ao longo da vida.

Psicóloga Glória Derlan

8/27/20256 min read

Crises emocionais ao longo da vida: por que elas acontecem e como podemos atravessá-las

Em algum momento da vida, todos nós passamos por situações que nos fazem sentir perdidos, inseguros ou emocionalmente sobrecarregados. Às vezes, isso acontece após uma mudança importante, como iniciar um relacionamento, escolher uma profissão, mudar de emprego, tornar-se pai ou mãe, enfrentar uma separação ou chegar à aposentadoria. Em outras ocasiões, a crise parece surgir sem um motivo tão evidente, como uma sensação de que algo já não faz sentido ou de que a vida precisa tomar um novo rumo.

Muitas pessoas acreditam que viver uma crise emocional significa que algo está errado. No entanto, do ponto de vista da Psicologia do Desenvolvimento, as crises fazem parte do processo natural de crescimento humano. Elas costumam surgir justamente quando estamos deixando para trás uma forma antiga de viver para construir uma nova.

Ao longo da vida, passamos por diferentes fases, e cada uma delas traz desafios, responsabilidades e expectativas próprias. A questão é que nem sempre estamos preparados para essas mudanças. Muitas vezes, aquilo que funcionava em uma etapa deixa de funcionar na seguinte. É nesse momento que surgem os conflitos, as dúvidas e o sofrimento emocional.

Crescer é mudar

O desenvolvimento humano não acontece apenas na infância. Continuamos nos transformando durante toda a vida. Nossos relacionamentos mudam, nossos objetivos mudam, nossa forma de enxergar o mundo muda e até a maneira como nos enxergamos também se transforma.

Pesquisas recentes mostram que o desenvolvimento é um processo contínuo de adaptação. Em cada etapa somos convidados a reorganizar quem somos e como nos relacionamos com o mundo. Embora esse movimento seja natural, ele nem sempre é confortável.

Toda mudança importante exige algum tipo de ajuste. E toda adaptação envolve perdas e ganhos. Para que algo novo possa surgir, muitas vezes precisamos abrir mão de algo que já conhecemos. É por isso que momentos de transição costumam ser acompanhados por ansiedade, medo, insegurança ou tristeza.

A adolescência: quando surge a pergunta "Quem sou eu?"

A adolescência é provavelmente uma das fases mais intensas da vida. O corpo muda, as relações com os pais se transformam, novas amizades ganham importância e começam a surgir questionamentos sobre o futuro.

Nesse período, uma das tarefas mais importantes é a construção da identidade. O adolescente busca descobrir quem é, quais são seus valores, do que gosta, onde pertence e que tipo de pessoa deseja se tornar.

Não é difícil entender por que essa fase costuma ser acompanhada por conflitos emocionais. Afinal, construir uma identidade significa experimentar possibilidades, testar limites e lidar com muitas incertezas. É comum que surjam dúvidas, inseguranças e sentimentos de inadequação.

O início da vida adulta: tantas escolhas, tantas dúvidas

Se antigamente a passagem para a vida adulta era mais previsível, hoje ela costuma ser mais longa e cheia de possibilidades. Escolher uma profissão, concluir os estudos, conquistar independência financeira, construir relacionamentos e definir projetos de vida são desafios que muitas vezes acontecem simultaneamente. Por isso, não é raro que jovens adultos sintam que estão atrasados, perdidos ou pressionados a encontrar respostas para perguntas que ainda estão construindo.

Muitas das crises dessa fase não surgem por falta de capacidade, mas pelo excesso de possibilidades e pela responsabilidade de fazer escolhas importantes. É um período em que as pessoas procuram seu lugar no mundo enquanto ainda estão descobrindo quem são.

As mudanças profissionais também podem gerar crises

Durante muito tempo acreditou-se que uma pessoa escolheria uma profissão e permaneceria nela até a aposentadoria. Hoje sabemos que a realidade é bem diferente. Mudanças de carreira, recolocações profissionais, novos projetos e recomeços fazem parte da vida de muitas pessoas. Embora essas mudanças possam representar crescimento, elas também costumam provocar insegurança.

Quando mudamos de profissão ou deixamos um trabalho importante, não estamos apenas alterando nossa rotina. Muitas vezes estamos abrindo mão de uma parte da nossa identidade. Perguntas como "Quem sou eu sem esse trabalho?" ou "Será que estou fazendo a escolha certa?" são mais comuns do que imaginamos.

A aposentadoria: o fim de uma etapa e o início de outra

A aposentadoria costuma ser vista como o encerramento da vida profissional, mas, na verdade, ela representa uma nova fase do desenvolvimento humano. Depois de anos ou décadas exercendo determinadas funções, muitas pessoas se deparam com uma pergunta difícil: "E agora?".

Para quem construiu grande parte da sua identidade em torno do trabalho, a aposentadoria pode trazer sentimentos de vazio, perda de propósito ou inutilidade. Por outro lado, também pode abrir espaço para novos interesses, projetos e relacionamentos. A forma como cada pessoa vive essa transição depende muito da capacidade de reinventar seu cotidiano e encontrar novos sentidos para a vida.

O olhar do Psicodrama sobre as crises

O Psicodrama, criado por Jacob Levy Moreno, oferece uma forma muito interessante de compreender esses momentos de transformação. Segundo Moreno, nossa identidade é construída nas relações que estabelecemos ao longo da vida. Desde o nascimento, desenvolvemos diferentes papéis: filha(o), irmã(o), estudante, amiga(o), profissional, parceira(o) afetiva(o), pai, mãe, aposentada(o) e muitos outros.

Esses papéis não surgem prontos. Eles são aprendidos e transformados ao longo das experiências que vivemos. Moreno chamou de matriz de identidade o ambiente relacional onde começamos a construir nossa percepção de nós mesmos e do mundo. É a partir dessas primeiras experiências que aprendemos a nos relacionar, confiar, pedir ajuda, lidar com frustrações e desenvolver nossa identidade.

Ao longo da vida, novos papéis vão sendo incorporados, enquanto outros se modificam ou deixam de existir. E é justamente nesses momentos de transição que muitas crises acontecem. Quando um papel importante deixa de fazer sentido ou quando precisamos assumir um papel novo para o qual ainda não nos sentimos preparados, é comum surgirem sentimentos de insegurança, medo e confusão.

Espontaneidade e criatividade: recursos para atravessar as mudanças

Moreno acreditava que o desenvolvimento saudável depende da capacidade de responder de forma espontânea e criativa aos desafios da vida. A espontaneidade não significa agir sem pensar. Significa conseguir encontrar respostas adequadas diante de situações novas ou responder de forma diferente a problemas antigos. Já a criatividade é a capacidade de construir novos caminhos quando os antigos já não funcionam.

Durante uma crise emocional, frequentemente sentimos que estamos sem saída. As mesmas estratégias deixam de funcionar, os antigos papéis parecem insuficientes e o futuro se torna incerto. Nesses momentos, desenvolver espontaneidade e criatividade torna-se fundamental para construir novas formas de viver, relacionar-se e enfrentar os desafios.

Como a Psicoterapia Psicodramática pode ajudar

A Psicoterapia Psicodramática entende que, por trás de muitos sofrimentos emocionais, existe um processo de transformação em andamento. O trabalho terapêutico ajuda a pessoa a compreender quais mudanças estão acontecendo em sua vida, quais papéis estão em conflito e quais recursos internos podem ser fortalecidos para enfrentar essa nova etapa. 

Mais do que focar apenas nos sintomas, a psicoterapia busca ampliar a consciência sobre a própria história, os relacionamentos e as possibilidades de escolha. Ao explorar experiências, emoções e papéis de forma vivencial, a pessoa pode desenvolver novas perspectivas sobre si mesma e sobre os desafios que enfrenta.

As crises emocionais nem sempre são fáceis. Elas podem ser dolorosas, confusas e desafiadoras. Mas também podem representar momentos importantes de crescimento. Muitas vezes, aquilo que inicialmente parece uma ruptura é, na verdade, o início de uma nova construção.

Sob essa perspectiva, a crise deixa de ser apenas um problema a ser eliminado e passa a ser compreendida como uma oportunidade de transformação, desenvolvimento e criação de novos sentidos para a vida.

Leia também: Saiba o que são ansiedade e estresse, como eles influenciam seu bem-estar e quando buscar ajuda profissional

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Bibliografia consultada:

Akkermans, J. Veiga, S. Hirschi, A. Marciniak, J. (2024). Career Transitions Across the Lifespan: A Review and Research Agenda. DOI: 10.1016/j.jvb.2023.103957.

Arnett, J. J. (2007). Emerging Adulthood: What Is It, and What Is It Good For?. DOI: 10.1111/j.1750-8606.2007.00016.x

Branje, S. Moor, E. Spitzer, J. Becht, A. (2021). Dynamics of Identity Development in Adolescence: A Decade in Review. DOI: 10.1111/jora.12678.

Greve, W. (2023). Adaptation Across the Lifespan: Towards a Processual Evolutionary Explanation of Human Development. DOI: 10.1007/s12124-023-09767-y.

Moreno, J. L. (1975). Psicodrama.

Moreno, J. L. (1992). Quem Sobreviverá?

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