Depressão e autoestima

Você sabia que a forma como você se percebe pode influenciar sua saúde emocional? Neste artigo, exploramos a relação entre autoestima e depressão.

Psicóloga Glória Derlan

8/27/20255 min read

Depressão e autoestima: o que vem primeiro?

É comum ouvir, no consultório, frases como "eu não sou bom o suficiente" ou "sempre estrago tudo". Quem chega à terapia carregando esse tipo de discurso interno costuma também trazer, junto, um quadro depressivo — e não é raro que essas duas coisas pareçam impossíveis de separar.

Daí surge uma pergunta que pesquisadores vêm tentando responder há décadas: a baixa autoestima leva à depressão, ou é a depressão que corrói a autoestima? A resposta, como costuma acontecer em Psicologia, não é simples — mas há evidências consistentes apontando um caminho.

Afinal, o que é autoestima?

Autoestima é o julgamento que fazemos sobre nós mesmos: o quanto nos sentimos capazes, dignos, merecedores. Ter autoestima saudável não tem a ver com se considerar superior ou sem falhas. É mais sobre conseguir olhar para si com uma certa generosidade, reconhecendo tanto nossas qualidades quanto o que ainda precisa ser cuidado, nossas dificuldades. Quando nossa autoestima está fragilizada, é comum que haja uma distorção na "lente" que enxergamos nós mesmos: os erros ganham mais peso, ficando desproporcionais à realidade, e as conquistas acabam sendo diminuídas ou simplesmente não ganham nossa atenção.

E o que muda na depressão?

A depressão não mexe só com o humor. Ela altera a forma como a pessoa pensa, se comporta e — principalmente — como enxerga a si mesma. Tristeza persistente, desânimo, perda de prazer em coisas que antes importavam, sono e apetite bagunçados, dificuldade pra concentrar, culpa, sensação de que nada vai melhorar: esse é o pacote. E quase sempre, no meio disso tudo, aparece um discurso interno duro — a ideia de que não se tem valor, de que se fracassa em tudo, de que ninguém se importaria de verdade.

O que dizem as pesquisas

Por muito tempo a dúvida era se a baixa autoestima seria só uma consequência da depressão — um sintoma a mais — ou se ela própria poderia abrir caminho para o transtorno. Estudos longitudinais, que acompanham as mesmas pessoas por anos, ajudaram a clarear essa questão.

Um dos trabalhos mais citados nessa área é o de Ulrich Orth, Richard Robins e Brent Roberts, publicado em 2008 no Journal of Personality and Social Psychology. Os pesquisadores acompanharam adolescentes e jovens adultos ao longo de vários anos e perceberam algo importante: a baixa autoestima predizia o surgimento de sintomas depressivos — mas o caminho inverso (a depressão predizendo queda futura na autoestima) não se sustentava da mesma forma. Isso reforça a ideia de que a autoestima funciona como um fator de vulnerabilidade, e não apenas como uma cicatriz deixada pela depressão. 

Anos mais tarde, esses achados foram confirmados por um estudo de replicação conduzido por Sven Rieger, Richard Göllner, Ulrich Trautwein e Brent Roberts, publicado em 2016 no mesmo periódico, que reproduziu o desenho original com outra amostra e chegou a resultados muito semelhantes. Juntos, os dois estudos reforçam a ideia de que a autoestima funciona como um fator de vulnerabilidade, e não apenas como uma cicatriz deixada pela depressão.

Anos depois, Julia Sowislo e o mesmo Ulrich Orth foram além: reuniram dezenas de estudos longitudinais numa metanálise publicada na Psychological Bulletin (2013) e confirmaram o padrão em uma escala muito maior. A baixa autoestima realmente antecipa o aparecimento de sintomas depressivos — e esse efeito é mais forte do que o caminho inverso.

Mas falta uma peça nesse quebra-cabeça: por que a autoestima baixa levaria à depressão? Uma pesquisa de Farah Kuster, Ulrich Orth e Laurenz Meier, também publicada na Personality and Social Psychology Bulletin (2012), aponta um possível mecanismo: a ruminação. Pessoas com autoestima mais frágil tendem a ficar presas em ciclos de pensamento repetitivo sobre seus próprios erros e fracassos — e é justamente essa ruminação que parece abrir caminho para os sintomas depressivos se instalarem.

Um ciclo que se alimenta sozinho

Apesar dessas evidências sobre a autoestima como fator de risco, a via de mão única não conta toda a história. Quando a depressão já está instalada, ela distorce a autopercepção: dificuldades cotidianas passam a ser lidas como provas de incapacidade, e qualquer deslize vira confirmação de que "eu sabia que não era bom o suficiente". Isso desgasta ainda mais a autoestima, que por sua vez alimenta novamente os sintomas depressivos. Não é exagero dizer que se trata de um ciclo vicioso — um empurra o outro.

O papel da psicoterapia

É justamente nesse ponto que a terapia entra. Mais do que aliviar sintomas, o processo terapêutico cria espaço para entender como essa autoimagem foi se formando ao longo da vida — em que relações, em que momentos, sob que influências.

Na abordagem psicodramática, por exemplo, é possível revisitar papéis e vínculos que moldaram a forma como a pessoa se vê hoje. Muita coisa que parece "verdade absoluta" sobre si mesmo, na verdade, foi aprendida em relações específicas — e pode ser ressignificada através de novas experiências relacionais. É um trabalho que não busca apenas reduzir o sofrimento imediato, mas reconstruir, aos poucos, uma relação mais gentil consigo mesmo.

Resumindo...

A relação entre autoestima e depressão não é simples, mas a ciência já deixou claro que as duas coisas conversam profundamente entre si. A autoestima fragilizada pode preparar terreno para a depressão, e a depressão, por sua vez, corrói ainda mais a autoestima.

Cuidar da saúde emocional, portanto, vai além de "tratar sintomas" — passa por reconstruir a forma como nos enxergamos, acolher a própria história e redescobrir recursos pessoais que muitas vezes ficaram esquecidos no meio do sofrimento.

Leia também: Como os relacionamentos e vínculos que construímos ao longo da vida influenciam nossa saúde mental, autoestima e qualidade de vida.

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Bibliografia Consultada

Kuster, F., Orth, U., & Meier, L. L. (2012). Rumination mediates the prospective effect of low self-esteem on depression: A five-wave longitudinal study. Personality and Social Psychology Bulletin. DOI: 10.1177/0146167212437250.

Orth, U., Robins, R. W., & Roberts, B. W. (2008). Low self-esteem prospectively predicts depression in adolescence and young adulthood. Journal of Personality and Social Psychology. DOI: 10.1037/0022-3514.95.3.695.

Rieger, S., Göllner, R., Trautwein, U., & Roberts, B. W. (2016). Low self-esteem prospectively predicts depression in the transition to young adulthood: A replication of Orth, Robins, and Roberts (2008). Journal of Personality and Social Psychology. DOI: 10.1037/pspp0000037.

Sowislo, J. F., & Orth, U. (2013). Does low self-esteem predict depression and anxiety? A meta-analysis of longitudinal studies. Psychological Bulletin. DOI: 10.1037/a0028931.

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