Autoconhecimento
O autoconhecimento vai muito além de “se entender melhor”: ele é um processo que se constrói na prática, especialmente na Psicoterapia.
Psicóloga Glória Derlan
7/29/20266 min read


Autoconhecimento e Psicoterapia Psicodramática: o que a ciência diz sobre esse caminho
O que é Autoconhecimento?
Poucas expressões são tão usadas — e tão pouco explicadas — quanto "autoconhecimento". Fala-se dele em terapias, em livros de autoajuda, em publicações de redes sociais, quase sempre como uma espécie de destino final: basta "se conhecer" e os problemas se resolvem. A Psicologia científica, no entanto, trata esse tema com mais cautela e complexidade. Autoconhecimento não é um estado que se atinge de uma vez por todas, mas um processo contínuo de construção de sentido sobre quem somos, como nos relacionamos e como reagimos ao mundo.
O que a Ciência diz sobre?
Para entender melhor o conceito do Autoconhecimento, vamos explorar algumas definições correlatas e científicas que ajudam a entender do que estamos falando quando buscamos nos conhecer melhor: a "Consciência observadora" seria a capacidade de observar a si mesmo e aos outros sem julgamento, culpa ou vergonha (Giacomucci, 2018; Hudgins & Toscani, 2013); a Teoria dos Papéis de Moreno - criador do Psicodrama- que propõe que "o eu emerge dos papéis, e não os papéis do eu" (Moreno, 1953). Essas definições nos levam a pensar que a identidade não é uma essência fixa a ser "descoberta", mas um conjunto dinâmico de papéis somáticos, psicodramáticos e sociais que a pessoa desempenha ao longo da vida: um processo relacional, corporal e em constante transformação.
Qual a relação do Psicodrama com o Autoconhecimento?
O Psicodrama foi desenvolvido por Jacob Levy Moreno, psiquiatra que também é considerado pioneiro da psicoterapia de grupo (Moreno, 1932/1957). O método integra três componentes interligados — sociometria (estudo das relações interpessoais), psicodrama (dramatização de questões pessoais) e psicoterapia de grupo — dentro do que Moreno chamou de "sistema triádico" (Giacomucci, 2021).
Diferentemente da psicoterapia verbal tradicional, o Psicodrama utiliza a ação, a dramatização e o corpo como via de acesso à experiência interna. Uma sessão típica passa por três fases: aquecimento (preparação do grupo/indivíduo), dramatização (trabalho sobre a questão trazida por um protagonista) e compartilhar (momento em que os participantes expressam identificações pessoais com o que foi trabalhado) (Giacomucci, 2021). O Psicodrama pode promover maior consciência de si através de suas técnicas teoricamente fundamentadas:
Desenvolvimento da espontaneidade-criatividade: "a capacidade de responder com certo grau de adequação a uma situação nova, ou com certo grau de novidade a uma situação antiga" (Moreno, 1953), através do reconhecimento de seus padrões automáticos de reação antes de poder mudá-los.
As técnicas do duplo, do espelho e da inversão de papéis: segundo a teoria do desenvolvimento de Moreno, essas três intervenções recapitulam etapas do desenvolvimento humano: o duplo (dar voz ao que não foi dito, estabilizando a experiência subjetiva), o espelho (permitir que a pessoa se veja "de fora", desenvolvendo diferenciação e uma percepção mais objetiva de si) e a inversão de papéis (colocar-se no lugar do outro, desenvolvendo a empatia) (Moreno, 1952; Dayton, 2005).
O átomo social e o átomo de papéis: são instrumentos de avaliação que permitem à pessoa representar graficamente suas relações significativas (átomo social) e os papéis que desempenha na vida (átomo de papéis), tornando visível — de forma literal, no papel — a configuração de suas relações e identidade (Moreno, 1953).
A catarse de integração: seria reorganização de percepções e sentido decorrente do trabalho psicoterapêutico, sendo considerada essencial para que a experiência emocional se transforme, de fato, em aprendizado sobre si (Kellermann, 1984; Moreno, 1972).
E por fim, o crescimento pós-traumático: a literatura descreve cinco domínios de crescimento após experiências adversas, entre eles o "aumento da percepção de forças pessoais" e a "filosofia de vida aprimorada" (Tedeschi & Calhoun, 1996; Calhoun & Tedeschi, 2014) — dimensões que dialogam diretamente com processos de autoconhecimento.
Benefícios observados na literatura
No campo da neurociência, Cozolino (2014) e Siegel (2012) argumentam que a integração neural — entre emoção e cognição, entre memória implícita e explícita — é o mecanismo central de mudança em qualquer psicoterapia, e que abordagens corporificadas e experienciais, como o Psicodrama, teriam potencial específico para acessar conteúdos armazenados de forma não verbal (Giacomucci, 2021).
Desta forma, os benefícios relatados relacionados a processos de autoconhecimento, bem-estar e qualidade das relações, a partir da Psicoterapia em Psicodrama incluem:
Maior autoconsciência e autoconceito mais integrado (Kellermann, 1994; Dayton, 2005).
Redução de sintomas depressivos e ansiosos (Costa et al., 2006; Erbay et al., 2018; Souilm & Ali, 2017).
Melhora em habilidades interpessoais e empatia (Dogan, 2018).
Melhora pós-traumática, incluindo maior senso de propósito, apreciação da vida e fortalecimento de relações (Calhoun e Tedeschi, 2014).
Fortalecimento da coesão grupal e da sensação de universalidade — o reconhecimento de que "não estou sozinho" — fator terapêutico reconhecido por Yalom e Leszcz (2005).
E por fim...
As técnicas psicodramáticas (inversão de papéis, duplo, espelho) têm evidência de eficácia terapêutica geral e estão conectadas a processos de maior consciência de si. O Psicodrama oferece uma visão de autoconhecimento como possível através do agir, ao encenar, ao ocupar — ainda que simbolicamente — o lugar do outro e o lugar de nós mesmos vistos de fora, não enxergando-o como uma verdade interior à espera de ser desvendada por meio da fala. A teoria dos papéis de Moreno, a técnica da inversão de papéis, o duplo e o espelho constituem um arcabouço teórico coerente para explicar como a ação dramática pode ampliar a percepção sobre padrões emocionais, relacionais e comportamentais.
O Psicodrama oferece um caminho experiencial promissor e teoricamente robusto para o desenvolvimento da consciência de si, a partir da qualidade da relação terapêutica, o contexto individual ou de grupo, e a disposição de cada pessoa para se engajar no processo, apresentando resultados positivos gerais da psicoterapia psicodramática sobre sintomas de ansiedade e depressão, habilidades interpessoais, empatia e crescimento após adversidades.
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Bibliografia Consultada
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